Agentes agroflorestais indígenas do Acre querem a regulamentação da profissão

Página 20, Rio Branco, 29/4/2003

Experiências em gestão ambiental desenvolvidas nas comunidades indígenas estão servindo de modelo para povos de outros Estados

Rose Farias

A proteção da biodiversidade e o uso sustentável dos recursos naturais existentes nas terras indígenas estão nas estratégias dos projetos que envolvem os povos indígenas no país. Dados apontam que 85% das terras sofrem algum tipo de interferência pelas mãos de terceiros, apresentando níveis consideráveis de degradação em função da exploração ilegal de recursos naturais nessas áreas e implementação de empreendimentos sem qualquer planejamento ambiental no seu entorno.
No Acre os povos indígenas vêm utilizando o conceito de gestão ambiental em suas comunidades, graças a um conjunto de medidas que envolve plano de manejo para madeira, preservação da cultura mitológica, reciclagem, recuperação de áreas degradadas, agroflorestas, criação de quelônios em cativeiro e outros. Mas, esse processo não seria efetivo sem a participação do agente agroflorestal indígena, a pessoa que trabalha a gestão ambiental em suas terras e de seu entorno.
São 105 agentes agroflorestais distribuídos em 19 terras
O trabalho dos agroflorestais no Acre teve início em 1996, primeiramente com 15 agentes. Hoje são 105, distribuídos em 19 terras indígenas e sete povos diferentes, que no momento articulam a regulamentação da profissão. Eles possuem uma entidade que os representa: a Associação do Movimento dos Agentes Agroflorestais do Acre – AMAAI-AC, criada em 17 de agosto de 2002, presidida por Nilson Saboia Kaxinawá.
Saboia adianta que a criação da associação vai de encontro às necessidades dos agentes agroflorestais (AF) e servirá para dar visibilidade ao trabalho que vem sendo desenvolvido nas comunidades indígenas e seu entorno.
“A associação representa o trabalho que estamos fazendo na área de gestão ambiental como a fiscalização, vigilância, conscientização e educação ambiental das comunidades indígenas e não indígenas, do entorno. Nosso propósito é trabalhar em parceria com organizações governamentais, não-governamentais, indígenas e não indígenas”, explicou Saboia.
Para o presidente uma das metas da associação é a regulamentação da profissão: “O primeiro passo é o de lutar pelo reconhecimento da profissão dos AFs como uma categoria profissional de gestão ambiental. Isso dará uma visibilidade a todo nosso trabalho. Um avanço importante é que estamos recebendo uma bolsa pelo Adjunto da Solidariedade, pago pela SEATER, dentro da extensão indígena. E em breve, graças as articulações que estamos fazendo, conseguiremos regulamentar a profissão”, enfatizou.
A articulação, segundo Saboia está avançando porque tem apoio do movimento indígena, Secretaria Extraordinária Indígena, UNI e do deputado estadual Moíses Diniz (PC do B).
Indígenas desenvolvem experiência em gestão
Hoje, todo o projeto desenvolvido pelos agentes agroflorestais está servindo de exemplo para etnias de outros Estados. Desde sábado passado, quatro lideranças indígenas da etnia Galibi Maruworno, do município de Oiapoque (Amapá) estão no Estado para conhecer de perto as experiências que estão sendo implantadas em suas aldeias.
“Já recebemos visitas de vários ‘parentes’, como os yanomami de Roraima e terenas do Mato Grosso do Sul. Estamos servindo de exemplo. Estamos mais avançados que outros estados porque a nossa experiência é a primeira criada dentro do Brasil, outros estados estão ainda começando e nós já implantamos projetos dentro de nossa comunidade”, diz Saboia.
Qualificação – Desde que foi criada a profissão, eles participaram de vários cursos, encontros e seminários. Ao todo foram 9 enfocando manejo, implantação de SAFs (Sistemas Agroflorestais), criação de quelônios em cativeiro, tracajá, melíponas (abelhas nativas). Todas essas experiências segundo o agente agroflorestal José de Lima Kaxinawá estão sendo desenvolvidas nas comunidades e seu entorno.
Os cursos acontecem no Centro de Formação dos Povos da Floresta, localizado na Estrada Transacreana. Ali são ministradas as aulas teóricas e práticas, uma espécie de laboratório com experiências em agrofloresta, criação de quelônios em cativeiro e outros.
“Como aqui é modelo demonstrativo todos os AFs possuem um SAF em sua comunidade e alguns já iniciaram a criação de quelônios em cativeiro. Na minha terra estamos criando tartarugas em cativeiro e em uma terra no Amônia estão criando tracajá, jabuti e melíponas, as abelhas nativas” explica.
Aplicando o conceito de agrofloresta, os agentes recuperaram uma área degradada localizada no Centro com o plantio de pupunha.
“Esse plantio de pupunha a gente fez com um trabalho de recuperação de área degradada, até mesmo para evitar a erosão. Fizemos um plantio muito adensado, pertinho um do outro”, explicou.
Gestão ambiental aliada à cultura
Para eles, os valores de agrofloresta devem vir agregados ao universo cultural mitológico. Mas como trabalhar gestão ambiental agregada à cultura de cada povo? José de Lima Kaxinawá acredita que para alcançar o conceito é preciso resgatar as lendas e mitos de cada comunidade e torná-las visíveis. Foi a partir daí que os agroflorestais passaram a conceber as esculturas em madeiras reutilizadas. Para eles, as peças criadas trazem um valor de preservação de sua cultura aliada ao conceito de preservação do meio ambiente. As madeiras que serviriam para a queima, agora agregam um valor cultural.
“Nós estamos trabalhando nas esculturas com o reaproveitamento das madeiras que estão caídas nos barrancos, isso faz parte da cultura e revitaliza os mitos” explica José Lima Kaxinawá
As esculturas também geram renda para as comunidades. As peças chegam a ser comercializadas de 3 a 4 mil reais em exposições realizadas nas principais capitais do país e no exterior.”Agora mesmo elas estão sendo mostradas numa grande exposição que acontece no Jardim Botânico no Rio de Janeiro. E está agendado uma grande mostra com 15 peças, como obra de arte”, explica Renato Gavazzi, coordenador do setor do meio ambiente da Comissão Pró-Índio.
Além das esculturas os agentes trabalham com o resgate das músicas relacionadas com agricultura e plantio, que para eles estavam em processo de extinção. Outro elemento importante, segundo José Lima Kaxinawá é a criação do material didático direcionado aos professores indígenas, instrumento de ensino lançado aos alunos dentro da comunidade. Além das viagens de intercâmbio entre os Estados do Brasil e outros países para troca de conhecimento na área.
“Nessas viagens a gente vem buscando outros conhecimentos e tipos de organizações para que possamos aplicar em nossa comunidade”, ressalta.
As esculturas mitológicas indígenas
Nas esculturas entalhadas pelos agentes agroflorestais, cada uma traz a sua história como a do povo manchineri, ashaninka, kaxinawá, apurinã e yanawa. José de Lima Kaxinawá fez questão de explicar à reportagem do Página 20, o significado da escultura que ele criou durante o oitavo curso dos agentes agroflorestais.
“Essa é uma escultura que representa um ser encantado que vive na floresta. Esse ser é o dono das caças dos animais. Então, para a gente caçar muito, temos que negociar com esses seres para matar as caças. Se matarmos além do permitido, ele pode castigar a gente, podemos ficar panema. Ele é o dono dos animais da floresta, como também da Samaúma, ele mora nela, na árvore maior da floresta”, conta o exímio escultor.
Entre tantas outras peças expostas na oficina do Centro dos Povos Indígenas, uma chamava a atenção: um enorme jacaré, que segundo relata José Kaxinawá serviu de ‘ponte’. Perguntado ao agente agroflorestal o sentido de ‘servir de ponte’, José Kaxinawá disse que no tempo que os povos indígenas vieram de outros lugares encontraram um rio muito grande, que não podiam atravessar, a partir daí tiveram que negociar com o jacaré para ajudá-los a transpor o rio.
“Ele serviu de ponte. E num certo momento ele pediu que os índios arrumassem comida para ele como veado, cutia, menos jacaré filhote. Foi então, que um deles fez isso: arrumou um filhote. O jacaré afundou, não mais servindo de ponte. Foi aí que aconteceu a divisão dos povos, uns foram para o Vale do Juruá, outros para o Purus, foi no tempo que teve essa divisão” relatou.
Fortalecimento das línguas minoritárias
Uma outro importante instrumento, que agrega valor ao projeto dos agentes agroflorestais está centralizado na Casa dos Autores Indígenas, um centro de informática e documentação que está sendo construído em uma das áreas do Centro de Formação dos Povos da Floresta. Previsto para inaugurar em agosto deste ano, o lugar servirá para o fortalecimento das línguas minoritárias no Acre. Lá os indígenas irão produzir as pesquisas e materiais didáticos em línguas indígenas e sistematizar todo o material catalogado.
“Em agosto, o evento que marcará a inauguração do espaço é o 1º Encontro de Escritores no Brasil, entre os povos indígenas que trabalham com língua escrita. Já existe uma literatura indígena no Brasil, o evento é para fortalecer as línguas minoritárias. Esse projeto faz parte também dos agroflorestas”, finalizou Renato Gavazzi, da Comissão Pró-Índio

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