Relatório de Viagem do AAFI Jorge Domingos Naxima Kaxinawá

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RELATÓRIO DE VIAGEM DE INTERCÂMBIO E ASSESSORIA ÀS TERRAS INDÍGENAS KATUKINA DO CAMPINAS E KAMPA DO RIO AMÔNEA

AFI Jorge Domingos Naxima Kaxinawá
Terra Indígena Alto Rio Purus
Aldeia Nova Fronteira

15 de agosto de 2003

Eu me desloquei às 11:00 horas da manhã na voadeira da Secretária de Saúde do Município de Santa Rosa no dia 13 de junho, juntamente com o motorista da voadeira Afonso e a minha esposa Maria de Fátima Domingos Kaxinawá, e duas crianças uma de 2 anos de idade e outra com 4 meses. Saímos com destino ao município de Santa Rosa por motivo de doença. Eu vim acompanhando a minha filha de 2 anos de idade, o nome dela é Anatalina Domingos Kaxinawá que veio passando mal, estava com pneumonia muito grave e infecção respiratória aguda. Nós saímos às 11:00 horas da manhã da aldeia Nova Fronteira e chegamos em Santa Rosa às 5:00 horas da tarde, aí eu fui direto ao posto de saúde do município e a Anatalina ficou internada no posto. Recebemos até atendimento dos enfermeiros profissionais do município, aí passamos o dia 14 todinho no posto e a Anatalina não teve melhora, estava cada vez piorando e eu e a mãe dela ficamos muito preocupados, vendo ela chorar. Aí ela passou pela avaliação médica do exército, junto com a enfermeira Marlene e a enfermeira Cleia do Polo Base de Santa Rosa, aí foi encaminhada para Rio Branco a paciente Anatalina Domingos. Eu pai dela AAFI Jorge Domingos acompanhei porque a mãe dela não podia vir por motivo que tinha outra criança e o pessoal da casa do índio não deixa entrar com pessoa sadia, por isso que eu vim acompanhando a minha filha na casa do índio.

No dia 15 de junho às 4:00 horas da tarde, chegou um avião direto para pegar a paciente Anatalina Domingos que ainda se encontrava no posto de Santa Rosa, passando mal. Aí quando o avião chegou fui encaminhado para Rio Branco às 4:30 horas da tarde, o avião saiu do aeroporto de Santa Rosa, mais ou menos nós chegamos em Rio Branco às 6:00 horas da noite. Quando o avião estava faltando 5 minutos para decolar no aeroporto de Rio Branco, o piloto Álvaro já confirmou uma vaga no hospital pronto socorro e já pediu que se aproximasse do aeroporto uma ambulância para pegar nós. Quando o avião decolou no aeroporto, a ambulância já se encontrava,. O piloto parou o avião, abriu a porta e ambulância já estava lá, eu peguei a Antalina, junto com uma enfermeira Samia, colocamos na ambulância e viemos direto para o Hospital Pronto Socorro, onde a minha filha ficou internada 2 dias e 2 noites. Foi a coisa mais ruim que eu achei na minha vida, fiquei 2 dias e 2 noites sem poder dormir, em pé noite e dia. A menina não comia, não falava, não abria os olhos só estava respirando bem devagarzinho pelo oxigênio, aí eu fiquei muito preocupado e sufocado de ver aquelas pessoas chegar batido, furado, quebrado, gemendo, gritando e chorando. Eu não achei bom de jeito nenhum hospital não é lugar da gente ficar, eu peço o meu “Rutxi Yuxî Cuchipá” para mim não entrar mais em hospital, aí eu passei 2 dias e 2 noites no pronto socorro, aí ela foi encaminhada para a FUNDACRE, Fundação Hospitalar do Estado do Acre, aí eu passei 16 dias internado com Anatalina mais tinha muita criança também internada, tudo com pneumonia as crianças dos brancos nawa. Eu vi que elas sofrem muito fazendo tratamento no hospital, para mim no hospital é um antigo. Aí a Anatalina melhorou, a médica que eu estava cuidando dela deu alta para ela, e eu trouxe ela para casa do índio junto com Avanisio motorista da casa do índio no dia 03 de julho de 2003. A Anatalina ainda continua se medicando na casa do índio e ainda tem uma consulta para fazer no hospital fundação para fazer uma tomografia. Por isso que eu ainda estou permanecendo aqui na casa do índio esse tempo e por esse motivo que eu estou passando esse tempo em Rio Branco na casa do índio. Esse relatório é do mês de junho, julho e agosto, o que aconteceu comigo e que já aconteceu na minha família, nós que estamos vivendo neste mundo de luta.

Ainda, eu, AAFI Jorge, estava na casa do índio participei de uma palestra do administrador da casa do índio do senhor Valmir junto com o doutor Jaime da casa do índio, onde estavam presentes pessoas de várias regiões. Estava presente também a liderança de 4 etnias que participaram da palestra, liderança Vicente Sabóia Kaxinawá José Sebastião Manchineri, Leôncio Apurinã e tinha também Kaxarari e mais outras pessoas que estavam presentes. Aí nós ouvimos a proposta do administrador e ele falou sobre a organização da casa do índio e organização dos parentes doentes e organização dos quartos para separar as pessoas que estão com doença TB, pessoas que estão com tuberculose que vem se tratar, pode ser Kaxinawá, Katukina, Kaxarari, Manchineri, Jaminawá, Apurinã, Kampa, pode ser qualquer etnia que estiver TB vão ficar só em um quarto. Tudo isso foi a proposta do administrador do índio, junto com o doutor Jaime. Eles repassaram isso para nós indígenas e pediram também a colaboração de todos os pacientes e acompanhantes.

Falaram também que tinha que tirar os cachorros e os gatos, porque tem muito gato na casa do índio, é casa de saúde mais tem muito gato que come resto de comida e o cachorro caga em cima de casa. Aí ele pensa que culpados são os índios. Então na palestra foi discutido esses assuntos dentro do setor da administração da casa do índio, o senhor Vaumi Esehiar Lira e o senhor José Oria Machineri os responsáveis da casa de saúde do índio no mês de julho.

Ainda eu estava na casa do índio no mês de agosto quando Anatalina estava bem melhor e eu resolvi ir na CPI dar uma visitada na sede da ONG que eu trabalho com eles. Eu pedi uma carona e o motorista da Toyota da casa do índio me deu uma carona até a rua que se chama bosque, aí ele me deixou lá, aí eu fui andando de pé com muito medo de se perder, mas eu consegui acertar e cheguei na CPI, e encontrei uma moça que trabalha lá, aí eu perguntei se o Tupi se encontrava lá e ela me falou que ele estava na sala dele. Fui e cheguei na sala deles e encontrei com o Tupi e o Adriano e eles me receberam. Eu conversei com eles e com a Malu. Vi o pessoal que trabalha todinhos, os assessores da educação e do meio ambiente. Tomei café junto com eles, aí nós voltamos e o Tupi me deu um jornal da assessoria que eles fizeram no Rio Jordão e dois livros de “Nukû Kene hati” e eu vim embora para casa do índio. Depois eu vim embora de ônibus e cheguei na casa do índio às 11:00 horas. O Tupi me falou também que tinha uma assessoria para a região do município de Cruzeiro na Terra Indígena do Campinas dos parentes Katukina. Ele me perguntou se queria ir com eles conhecer outras terras e ver como os outors agentes agroflorestais estão trabalhando. Eu vim primeiramente ver com o pessoal da casa do índio, se não tinha problema eu ir. Aí voltei para a casa do índio e conversei com a Vani e com a Lira e eles me disseram que não tinha problema que a minha mãe ia cuidar dela. Voltei para a CPI confirmar com o Tupi, nós ficamos certo para viajar com o Tupi e o Adriano. O Tupi me deu o material como: caderno, lápis de cor, aí eu voltei para a casa do índio e comecei a escrever o meu relatório no dia 18 de agosto no ano de 2003, comecei a trabalhar o meu diário, registrando o que passou comigo, o que eu vi , o que eu conversei com o pessoal, o que fiz acompanhando a minha filha Anatalina. Esse relatório foi terminado no dia 21 de agosto de 2003.

21 de agosto de 2003

Agora eu fiquei esperando para viajar junto com o Tupi e o Adriano para o município de Cruzeiro do Sul, Terra Indígena Campinas e Terra Indígena Arara, para conhecer outros parentes e fazer todo o intercâmbio em outras regiões do Estado do Acre.

AAFI agente agroflorestal Jorge D. Naxima Kaxinawá

Assessoria na Terra Indígena Campinas, viagem de intercâmbio pela rede de cooperação alternativa do Brasil

Eu, AAFI Jorge D. Kaxinawá, saí da casa do índio às 7:00 horas da manhã na Toyota da CPI no dia 25 de agosto do ano de 2003, junto com os assessores da CPI/AC o Tupi, o Adriano, a Vera Olinda e o motorista Gilberto da Toyota. Nós viemos direto até o aeroporto de Rio Branco e chegamos no aeroporto às 7:40. O Tupi colocou as bagagens no bagageiro, aí nós nos despedimos do motorista Gilberto da CPI, nós saímos do aeroporto sentamos em um banco, aí a moça falou que já podia se aproximar quem iria viajar para Tarauacá com destino à Cruzeiro do Sul. Nós já saímos, andamos e embarcamos no avião que se chama Tavaj. Um avião que pega 44 passageiros, grande. Eu subi junto com o Adriano e o Tupi, a moça estava na porta e me deu bom dia, eu disse bom dia para ela, passei e sentei perto do Adriano. Fiquei só prestando atenção com muita curiosidade como era que o avião ia subir, o que eu ia sentir. Eu fiquei meio nervoso pensando que ia passar mal, porque era a primeira vez que eu estava viajando de avião grande, mas eu me firmei e senti só um pouco de tontura, graças a deus. Saímos de Rio Branco às 8:00 horas, o avião desceu no município de Tarauacá às 9:00 horas. Primeiro saímos do avião, só a Vera que ia para o Gregório para a Terra Indígena dos Yawanawá, e o avião demorou mais ou menos 10 minutos no aeroporto de Tarauacá. Depois prosseguimos a nossa viagem com destino à Cruzeiro do Sul. O avião subiu que passou das nuvens, eu vi só mata, quando o avião ia subindo e descendo, tem muito pasto na área dos municípios. Eu vi só aquelas matas de florestas e muito açude, vi também o rio Tarauacá, o rio Juruá e muitos lagos.

Quando o avião subiu passou 15 minutos, a aeromoça trouxe a refeição e me deu, mas ainda, eu não estava com fome, tinha comido bolo, bolacha, doce de goiaba e suco de laranja sobre o pão e manteiga. O Adriano me pediu, eu dei para ele e comeu todinho, eu bebi só água. Quando o vôo está faltando 5 minutos para decolar na pista a aeromoça fala para a gente ter cuidado e passarem os cintos. Às 10:00 horas o avião aterrizou na pista do município de Cruzeiro do Sul. Nós passamos no aeroporto de Cruzeiro 30 minutos. Pegamos a nossa bagagem e embarcamos em um taxi. Viemos embora para o centro. Eu perguntei o nome do motorista do taxi era Abril, o Tupi mais o Adriano fumaram dentro do taxi e ele falou que não podia. Aí nós corremos uns 30 minutos e chegamos na cidade de Cruzeiro. O taxi parou de frente o hotel do seu Bilario. O Tupi pagou R$ 30,00, passamos um tempo e saímos juntos com o Tupi e o Adriano para ver se encontramos a casa de alguns parentes Katukina. Nós não encontramos, fomos até a igreja de Cruzeiro, onde trabalha o Cimi, mas nós não encontramos ninguém, Fomos andando às 12:00 horas e fomos almoçar no restaurante Napolitana do município de Cruzeiro do Sul. O Tupi pagou R$ 36,00, nós saímos e viemos andando para o hotel de baixo de um sereno. Paramos em um canto e nós avistamos o agente agroflorestal Francisco Arara Timbu Shawã do município de Porto Walter. Ele nos cumprimentou, nós cumprimentamos ele também. Ele conversou com o Tupi e o Adriano. Daí nós despedimos e saímos caminhando até o hotel e ficamos 3 horas Timbu Shawã chegou no hotel para receber as sementes de graviola, carambola, açaí e pupunha que o Tupi entregou para ele. Ficamos no hotel sentado na mesa conversando com o AAFI Timbu Shawá contando historinhas, choveu a tarde, depois a chuva passou e o AAFI Francisco Arara foi embora. Durante a tarde o Tupi e o Adriano sairam para conversar com as pessoas que trabalham no IMAC e eu fiquei no hotel escrevendo o meu relatório, assisti filme na televisão do hotel e jantei churrasco de galinha com farofa, aí nós passamos a noite dormindo.

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