Os Agentes Agroflorestais Indígenas – AAFI

Nós, Agentes Agroflorestais Indígenas

Somos pessoas indicadas pelas nossas comunidades para trabalhar na gestão ambiental de nossas Terras Indígenas e estamos pensando num futuro melhor. Por isso estamos trabalhando no manejo dos recursos naturais e agroflorestais em nossas Terras.
Estamos implantando os sistemas agroflorestais em nossos roçados novos, capoeiras e quintais. Queremos junto das nossas comunidades produzir muitas frutas para num futuro próximo ter muita fartura de alimento para todos os nossos parentes.

Somos parte da educação

Para trabalharmos na gestão ambiental, estamos nos conscientizando dos problemas ambientais. Queremos prevenir esses problemas, vigiando, fiscalizando, cuidando e controlando os nossos territórios.
A profissão do agente agroflorestal não é só plantar as frutíferas, palmeiras e outras árvores na aldeia. Mas é também orientar a comunidade no cuidado do nosso meio ambiente, na conservação e no manejo dos nossos recursos naturais da florestais. Somos também parte da educação e parte da saúde: na parte da saúde, trabalhamos na produção de alimentos, as verduras e as frutas do SAF. Também discutimos e orientamos os problemas do lixo, contaminação das nossas águas e a conservação o nosso meio ambiente limpo e sadio. Dentro da aldeia, somos os representantes da educação ambiental indígena. Fazemos parte da escola, ensinando as pessoas da comunidade e outras pessoas fora da comunidade. Somos os educadores ambientais indígenas. Como educadores ambientais, estamos lutando junto da floresta para conservar as nossas riquezas naturais dentro de nossa terras demarcadas

As nossas organizações

Somos as pessoas que fazemos parte das nossas organizações. Estamos trabalhando junto de nossas lideranças, professores, agentes de saúde, presidentes de associações e com o pessoal da nossas comunidade no manejo dos recursos naturais, elaborando e discutindo com as nossas comunidades o plano de uso dos recursos naturais das nossas florestas, que são a nossa maior riqueza que temos nessa terra, nesse estado, nesse país.
Fazemos reuniões, discutimos com a comunidade, ensinamos e orientamos nossos parentes na gestão ambiental. Estamos preocupados com a destruição do planeta Queremos que nossas florestas continuem de pé, dando força para nós que estamos de passagem por essa terra.

As novas alternativas

Estamos lutando para aprender novas alternativas para que possamos chegar em nossas comunidades com um novo plano de trabalho que envolva mais a comunidade e que traga melhoria para todos nós índios que vivem a muitos e muitos anos nessa terra chamada Brasil.

Trabalhamos na reciclagem de madeira, transformamos os troncos de madeira em esculturas, pedaços de tábuas em bancos, vendemos esses produtos para muitos lugares do Acre e do Brasil. Estamos mostrando com o nosso trabalho um novo produto da floresta, uma nova alternativa econômica de vender os nossos recursos naturais transformados em peças utilitária. Estamos conseguindo um bom preço por esses produtos, mostrando com o nosso trabalho que é possível não derrubar as florestas.

Somos os fiscalizadores, os guardas da floresta

Para ter a nossa gestão ambiental, queremos trabalhar junto dos órgãos de fiscalização do meio ambiente. Sem destruição e sem miséria Porque uma das funções do Agente Agroflorestal Indígena é fiscalizar a sua Terra Indígena das invasões, dos caçadores, pescadores profissionais, madeireiros, e outras pessoas que tem interesse nos nossos recursos naturais do meio ambiente.

Somos funcionários da floresta

Nós queremos que a nossa profissão seja reconhecida dentro do estado, porque nós somos os funcionários da floresta. Queremos que o estado reconheça a nossa profissão e que o governo da floresta ajude para ter mais cursos aqui no Centro de Formação dos Povos da Floresta. Nós precisamos do reconhecimento dentro do estado do Acre. Nós precisamos de mais força, para unir as nações indígenas.

Nós precisamos de ajuda, de compromisso e compreensão para que reconheçam a nossa profissão com agente fiscalizador. Somos os guardas das nossa terras e de nossas florestas.

Estamos plantando várias árvores de frutíferas, madeiras de lei, palheiras e outras árvores de utilidade para o nosso povo, para a nossa sociedade.

Trabalhamos para orientar a nossa comunidade no manejo das caça, das pescas, das palhas, nos enriquecimentos das capoeiras. Estamos buscando melhorar a nossa vida na Terra Indígena, tentando evitar e defender-nos das invasões. Prestamos serviços à comunidade, como o professor e o agente de saúde vem prestando também.

Estamos começando a reflorestar as Terras Indígenas de fartura e alegria para todos os seres viventes.

O Trabalho dos AAFI
Fiscalização e vigilância das TIs

No trabalho de manejo de recursos naturais em Terras Indígenas, uma das tarefas mais complexas é a vigilância e a defesa territorial.

“Depois que eu comecei a trabalhar como agente agroflorestal, venho fazendo o manejo dos nossos recursos naturais, como peixe, caça, palha, árvores, etc. Aqui tem muita caça dentro de minha terra, tem muito queixada, muito peixe, tem vários tipos de caças.(…), porque a minha terra já foi demarcada esse ano 2002 e agora está com muita segurança, já tem muitas placas que o governo federal mandou para nós. E nós colocamos essas placas para não ter mais invasão aqui dentro dessa terra que é o Seringal Independência. Eu vi muitas invasões, tanto dos vizinhos como daqueles que moram no município do Jordão que vem atrás do que é nosso, para matar as caças que estão dentro da terra indígena. Assim eu acho que é muito importante lutarmos contra esse jeito de achar que o que tem dentro de uma terra indígena não tem dono”.
AAFI Josimar Pinheiro Sales Kaxinawá

Outros trabalhos dos AAFI
  • Ecologia Indígena
  • Agrofloresta
  • Hortas Orgânicas
  • Criação e manejo de animais silvestre e domésticos
  • Manejo e Conservação dos Recursos Naturais
  • Arte e Ofícios
Programa de formação dos AAFI

Em 1996, como conseqüência da formação dos professores indígenas e dos agentes indígenas de saúde, percebeu-se a necessidade de uma nova formação que fosse capaz de contemplar a questão da gestão territorial e ambiental, articulando-a ao tema da segurança alimentar. Surgiu assim a proposta de formação dos Agentes Agroflorestais Indígenas (AAFIs), novos atores sociais responsáveis por realizar um trabalho educativo e participativo junto às comunidades indígenas e seu entorno para garantir que a gestão dos territórios proporcione um melhor nível de qualidade de vida para as populações que neles vivem. Os AAFIs atuam na implementação e experimentação de tecnologias inovadoras voltadas para a promoção da soberania alimentar e nutricional. Essas inovações abrangem práticas em sistemas agroflorestais, de criação racional de animais domésticos e silvestres, monitoramento ambiental e manejo agroextrativista. Atualmente o Setor de Agricultura e Meio Ambiente da CPI/AC em parceria a Associação do Moviemento dos Agentes Agroflorestais Indígenas do Acre – AMAAIAC, trabalham com a formação profissionalizante de 126 jovens e adultos indígenas, de 10 povos em 21 territórios no estado do Acre e sudeste do Amazonas.

A Proposta Pedagógica e Técnica

A proposta pedagógica utilizada na formação dos AAFIs é articulada por quatro diferentes modalidades: os cursos intensivos presenciais, que ocorrem em Rio Branco, as oficinas itinerantes e as assessorias, que ocorrem nas TIs e os intercâmbios, que são visitas para troca de experiência entre os grupos.

Os cursos intensivos ocorrem uma vez ao ano, no Centro de Formação dos Povos da Floresta (CFPF), um sítio de 31 hectares onde, durante os cursos de formação, foram implantados modelos demonstrativos de Sistemas Agroflorestais, horta ecológica e criatórios de quelônios, peixes, animais domésticos de pequeno porte e abelhas nativas. Os eventos envolvem turmas de 20 a 40 indígenas de diversas etnias e regiões do estado do Acre e possuem carga horária aproximada de 300 horas/aula, distribuídas em 30 a 45 dias. Os conteúdos abordados nos cursos são organizados em duas áreas distintas: nos domínios do saber da formação profissionalizante estão incluídos os temas do manejo agroflorestal e de recursos naturais, e os domínios do saber da formação básica incluem, entre outros, as línguas indígenas e portuguesa, química e biologia, todos abordados tendo o tema do meio ambiente como eixo gerador.
As oficinas itinerantes ocorrem nas TIs, possibilitando a formação dos AAFIs e demais comunitários das aldeias. As assessorias são momentos de formação em que os assessores da CPI/AC realizam visita às TIs, com objetivo de acompanhar os trabalhos dos AAFIs em seus contextos socioculturais, ambientais e políticos específicos. Os intercâmbios proporcionam a aprendizagem por meio da troca de experiência e da observação e contato com outras realidades (geográficas, ambientais, culturais, políticas, econômicas).